19 maio 2017

Um dia eu gostava


Um dia, gostava que um desconhecido se aproximasse de mim e me dissesse "Está tudo bem, vai tudo ficar bem", e depois fosse embora. Ficaria para sempre na minha memória como aquele desconhecido que melhorou o meu dia. Como aquele senhor que me contou piadas e trocadilhos na paragem de autocarro, sem nunca me perguntar o nome ou dizer o dele, e depois entrou no seu autocarro e foi embora. Ou como aquela senhora que meteu conversa comigo durante a viagem, sobre a faculdade e as coisas, e me falou de como foi no seu tempo, mas também nunca trocámos os nomes e ela saiu na paragem antes da minha.

Um dia gostava que um conhecido me perguntasse o nome, e depois passaríamos a conhecer-nos a sério. Talvez ficássemos amigos, ou talvez não, e nem precisávamos de voltar a falar, mas eu ficava a conhecer um pouco melhor alguém, e alguém passava a conhecer-me um pouco melhor a mim.

Um dia eu gostava de encontrar uma mensagem entre os livros da biblioteca. Gostava de deixar outra em resposta. E ter uma conversa inteira com bilhetinhos rasgados e rabiscados, naquela prateleira esquecida da estante. E nunca iria conhecer a outra pessoa, ia ser como um pen pall, mas mais divertido.

Um dia eu gostava que os meus amigos me arrancassem de casa e me arrastassem para o comboio, e me levassem à praia de madrugada. Que me atirassem à água, me atirassem areia, me tirassem daquelas fotos desprevenidas e bonitas em que só quem se está a divertir consegue ficar bem. Depois podíamos deambular pela costa, apanhando pedrinhas e conchinhas, inventado histórias e fazendo planos para o futuro. Daqui a cinco anos vamos aqui voltar. Daqui a uma semana vamos ao rio. Daqui a duas horas vamos comer um gelado.

Um dia gostava de me apaixonar a sério, por alguém a sério, e ter um romance a sério. Não precisa de ser perfeito, apenas a sério. Não precisa de ser saído de um livro de Nicholas Sparks, apenas ser a sério. Ele não tem de ser maravilhoso, nem incrível, nem saído dos meus sonhos, apenas tem de ser a sério. Sem ciúmes, sem regras, sem terceiras partes nem silêncios. Apenas ser a sério.

Um dia gostava de ter coragem de ir ter com algum desconhecido e começar a conversar. Conhecer muitos desconhecidos, até deixarem de ser desconhecidos, absorver um pouquinho das suas vidas na minha. Tentar preencher um pouco o meu vazio com aquilo que transborda das outras vidas. Ter um novo contacto no telemóvel, que não vai ficar só guardado e vai ser usado.

Um dia gostava de conseguir ser eu. Não precisar de ser arrastada para a praia, nem reunir coragem para conversar, nem sonhar com o desconhecido e com o que devia ser conhecido. Não ter de levantar-me sozinha de todas as vezes que caio e não ter de seu eu a sacudir o pó da minha roupa. Poder beber e beber sem medo de não chegar a casa, e chorar e chorar sem medo de sair de casa.

Um dia gostava de poder eliminar toda esta solidão, toda esta podridão na minha alma, que vai e vem e volta e retorna, mas nunca fica e nunca desaparece, e me faz deambular pela vida como se não fosse minha. Ganhar poder sobre mim própria, preencher este vazio e iluminar esta escuridão.

Um dia gostava, eu um dia talvez possa, completar todos estes sonhos e toda esta vida, e apagar esta dor da minha alma.


1 comentário:

  1. Conheci este blog hza sensi6velment\e 2 ho8rzas e jza me zapzai6xo8nei6. Quando vi o titulo deste post nao, por algum motivo, pensei que nao fosse ter este conteúdo. Mesmo assim, li-o por curiosidade. Li-o e surpreendi-me pela quantidade de semelhanças que tem comigo. Identifiquei-me bastante e fiquei feliz por, de certo modo, ser compreendida. Adorei-o e a minha sugestão é que se podia investir mais em posts deste género. Precisava de ler algo assim já desde há muito tempo. Mais uma vez, adorei-o mesmo muito, beijinhos e continuem assim!

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