21 abril 2017

Prateleira de sonhos vazia

Design. Canva

Quando penso no futuro, é a tua imagem que me vem à mente. Um infinito de possibilidades refletidas nos teus olhos cor de mel e o doce vestígio dos sonhos que já tiveste, tens e poderias ter. Gostava de fazer parte de alguns deles; E gostava que visses nos meus olhos o que eu vejo nos teus. Uma dócil esperança que me acompanha sempre que penso em ti.

Imagino-nos num apartamento vulgar, com mobília simples e decoração simbólica. Sabes, lembranças das nossas viagens pelo mundo: uma miniatura na Torre Pizza na mesa da sala, sobre uma toalha açoriana; uma estátua de Buda que trouxemos do Tibete no móvel do corredor, rodeada de velas aromáticas indianas e incenso. Uma máscara mexicana pendurada na parede da sala, mesmo ao lado daquele quadro engraçado que comprámos na Alemanha; sem mencionar a estante repleta de livros, os teus e os meus, e ainda os CD’s e DVD’s que vamos acumulando das nossas bandas e filmes favoritos; aqui e ali podemos ter fotografias nossas, apenas para recordarmos pequenos momentos quando olhamos para elas.

Tu sabes que eu odeio tabaco, mas não te incomodarei se te limitares à varanda quando quiseres alimentar o vício. Em contrapartida, espero que não me perturbes quando estiver a meditar – é importante para o meu equilíbrio emocional. Não me queres ver a explodir de cada vez que entornas a cerveja no tapete, pois não? A cerveja é mal empregada e o tapete foi-me oferecido pela minha avó. E sim, podemos ter um mini-bar, para guardares toda a tua coleção de vinhos e águas-ardentes de que tanto gostas.

Podemos ter sessões de cinema em casa de vez em quando. Eu deito a cabeça no teu colo, ou tu no meu, e vemos filmes enquanto brincamos com o cabelo ou afagamos a mão um do outro. Rimo-nos com as comédias, seguras-me a mão com os filmes de terror, aturas as minhas crises de romantismo com as comédias românticas, acompanho-te nos filmes de ação, e ajudas-me a compreender aqueles thrillers psicológicos altamente confusos. Por fim, um de nós adormece antes dos créditos finais e o outro aguarda até a tela preta desaparecer para o despertar.

Tentarei não gritar contigo quando subitamente alterares os teus planos; mas apenas se evitares comentários sobre a noção de moda das minhas amigas, ou se não me obrigares a ficar em casa quando os teus amigos cá vêem. Não me interesso por futebol, prefiro ir até casa de alguma amiga durante esse tempo, e agradeço que sejas compreensivo nisso. Até vos deixo a cerveja no frigorífico e os aperitivos todos à mão para te facilitar as coisas.

Também agradeço que não critiques a minha coleção de sapatos. Afinal de contas, aquela caixa debaixo da cama está cheia de figuras de ação sem utilidade e eu nunca me queixo dela. E podes crer que vou transformar o quarto de hóspedes no meu ateliê. Pendurarei os meus desenhos nas paredes, muitos deles de ti, e forrarei o chão com papel de jornal para não sujar os ladrilhos. Uma vez por semana vou trancar-me lá dentro e exigir sossego – aproveita essa altura para chamar os teus amigos para uma partida de póquer. Sei que gostas de póquer.

Não deixes o calçado espalhado pela casa. Eu não deixo o meu, pois não? E por favor, pendura o casaco no cabide do hall de entrada – sabes que odeio engomar roupa e deixá-lo largado num sítio qualquer não ajuda muito. Creio que podemos ser um casal perfeito, ou chegar perto disso, se cumprirmos as nossas próprias regras.

Eu sei. Estou a sonhar demasiado alto. Não tenho culpa se o meu coração se contrai dolorosamente quando penso em ti, ou se choro impiedosamente ao lembrar a tua voz quando dizias que me amavas. Acredito que ainda me amas, sabes? Porque nunca se deixa de amar – apenas se ama menos. Espero que possamos reatar quando eu for ter contigo. Esta distância está a consumir a minha alegria, a torná-la em cinzas nostálgicas e saudade. Porque preciso de ti aqui, para me abraçares e dizeres que está tudo bem, que ficará ainda melhor, que continuará tudo ótimo. Mas não está bem. E jamais estará.

Aquele fatídico dia tirou-me tudo o que eu tinha. Ninguém liga às campanhas da polícia quando eles alertam para os riscos de conduzir embriagado. Aquele teu amigo, o que sobreviveu, não deu atenção aos milhares de vezes que viu o alerta. E graças à sua insistência em ignorar o que é sábio, quatro jovens – tu incluído – foram vítimas da sua imbecilidade. Espero que ele carregue a culpa para o resto da vida, porque ele tirou-me tudo.

O apartamento, as recordações, as sessões de cinema, o ateliê com desenhos teus e acordar todos os dias ao teu lado – tirou-me tudo isso e mais ainda. Tirou-me aquilo que eu mais amo, a alma mais nobre que eu já conheci, o sorriso mais belo que eu já vi, os olhos mais vivos que eu já encontrei, e o abraço mais aconchegante que já senti.

Tirou-me tudo. Tirou-te de mim.



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