22 janeiro 2017

Sob a Chuva • Texto



Os dias de sol são os mais amargos. São os dias em que tenho vontade de viver e de procurar uma nova esperança, correr os becos da cidade em busca da que perdi. Dias chuvosos são mais oportunos; posso comprimir-me a um canto e incriminar o mau tempo pelo meu deplorável humor. Posso chorar o quanto quiser, ninguém dirá que está um belo dia que não deve ser desperdiçado. Posso morrer quanto quiser, ninguém me culpará por isso.

São também os dias de sol que mais me fazem sentir a tua falta. Sinto a tua falta, porque és uma parte de mim. Sinto a tua ausência, porque não gosto da minha vida sem ti. Era em dias de sol como este que nós íamos passear, visitar os sítios novos ou antigos da cidade, conversar no parque ou beber um café lá em baixo enquanto discutíamos as últimas novidades.

Todos os dias te espero no metro, para que possamos fazer juntos a viagem que nos levaria ao nosso universo. Tu sabes, aquele que só nós conhecemos e nunca partilhámos com mais ninguém. Mas sei que não tornarás a aparecer nesta paragem. Talvez noutra, quem sabe.

Era inevitável, não era? Por muito que não goste de pensar assim, desde o início ambos sabíamos qual seria o final. Não havia como contorná-lo e não há como controlar a natureza. Segurei a tua mão quando mais precisaste, mas quando precisei do teu ombro tu tinhas desaparecido. Deitei a cabeça no granito gelado e duro, chorando, desejando que pudesses voltar para sermos felizes de novo. Procurei por ti em todos os sítios que visitámos juntos, em cada igreja e discoteca, em cada café e biblioteca. Rezei por ti e por nós, bebi por mim e por tudo aquilo de que consegui lembrar-me.

Dizem que sempre se consegue transpor a dor e viver. Contudo, ouço contar histórias de amantes que morreram de amargura, lendas de almas que buscam incansavelmente os seus parceiros, músicas de despedidas que acabaram em perpétuo tormento. O meu sofrimento é vasto, e temo a possibilidade de ser eterno. Poderás tu reduzi-lo só um pouco, admitir-me levantar e dar alguns passos?

Saio à rua sob a chuva penosa, abandono o chapéu em casa para ficar mais perto do céu. Talvez até mais perto de Deus. Calco o caminho do costume, os quilómetros que me levam até ti, lavando-me na água gelada que me ensopa as roupas e a alma. Trilho por entre os leitos de outros muitos, inspiro o perfume caraterístico de moradas como esta, as cores vivas das flores mudadas, ou mortas das flores esquecidas. Os títulos nas pedras, as estátuas de anjos e santos, as citações bíblicas e as fotografias – boa parte delas a preto e branco – de moradores mais antigos que tu. Aqui e ali pessoas como eu, que vêm visitar amados e amantes, amigos e acompanhantes. Aqui e ali uma lágrima perdida, um sorriso triste, uma rosa murcha.

Deito a cabeça na pedra frígida. Acaricio o granito empoeirado, choro sobre os minerais que agora te recebem. Rezo por ti e por mim, por nós e por tudo aquilo de que me lembro.


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