31 janeiro 2017

A perfeição é chata • Texto


Ser perfeito é cansativo. E não só cansativo, como aborrecido. Tira uma parte da nossa própria personalidade e transforma-nos em seres idealizados e de manutenção dispendiosa. Sim, sai caro. Não à carteira, como seria de esperar, mas à alma.

Sabem, quando somos perfeitos, não podemos cometer erros. E o erro é a maior bênção das pessoas não perfeitas. O erro ensina, é o melhor tutor que pode haver, e nem o melhor professor pode ensinar tão bem quanto o erro. Mas, sendo-se perfeito, não se pode errar. O erro é uma quebra na perfeição. E essa é a parte mais chata de ser-se perfeito. É que erro também dá histórias para contar, dá lições de moral para transmitir e dá uma experiência real da vida. 

Eu sempre me perguntei porque é que não consigo abandonar os romances adolescentes que leio desde os onze anos. Eu adoro literatura "de verdade", e o meu reportório de leituras vai amadurecendo de ano para ano. Mas, não importa o quanto eu adore Saramago, Orwell ou outros autores distintos, eu acabo sempre por mergulhar nalgum romance juvenil de tempos a tempos. Isso é algo que me tem intrigado, e recentemente, cheguei a uma conclusão. Ou penso que cheguei. 

Esses romances não estão compostos apenas por amores platónicos, paixonetas assolapadas e rebeldias típicas da puberdade. Estão sobretudo compostos por erros. Erros e mais erros e mais erros ainda. Erros que criam histórias. Histórias que dão às personagens uma vida muito mais interessante do que... bem, do que a minha. Porque eu não tenho histórias. Passei toda a minha vida a evitar os erros. Nunca apanhei uma bebedeira antes de ir para a faculdade, nunca tive um caso de uma noite só com ninguém, nunca faltei às aulas por rebeldia, nunca fui mal educada com um professor ou funcionário, nunca me escapei de casa para ir curtir com os amigos, nunca cometi nenhum desses erros que a maioria dos adolescentes cometem, pelo menos, duas vezes antes de atingirem a maturidade. Porque eu fui uma miúda extra-madura desde sempre. Eu simplesmente pensava sempre duas vezes antes de fosse o que fosse. Tudo, absolutamente tudo, era avaliado por diversos ângulos antes de mais. Cada palavra estudada, cada gesto calculado, cada atitude controlada. Nada a ver com a impulsividade típica dos miúdos da minha idade. É claro que, quando eu perdia o controlo, perdia mesmo. Mas fora essas quebras, eu era a pessoa mais perfeita que havia em termos de comportamento. 

E essa perfeição tem a triste consequência de que eu, quando for uma velhinha com netos e estiver nalgum jantar de família, simplesmente não vou poder contar histórias da minha juventude. Sim, desde que fui para a faculdade que ganhei algumas histórias, mas com vinte anos seria de esperar que tivesse mais do que três ou quatro. Quando os meus próprios filhos estiverem a atravessar problemas e os seus próprios erros, eu não vou poder contar-lhes as minhas experiências, porque simplesmente não as tive. E quão triste pode ser isso? Portanto, de certo modo, acredito que esses romances melosos e imaturos que eu vou lendo são a minha forma de preencher essa falta de experiência e vivências. 

Outra parte bastante aborrecida de ser-se perfeito, é que simplesmente não se pode perder o controlo. Quero dizer, não podemos simplesmente não ser perfeitos. As pessoas esperam que sejamos sempre razoáveis, simpáticos, bem educados e prestáveis. Elas sabem que nunca vamos dizer não, que nunca lhes vamos falar com três pedras na mão, que nunca as vamos desiludir. Porque somos perfeitos. E é toda essa expectativa que torna ainda maior a desilusão quando decidimos, pelo menos uma vez, ser menos perfeitos. 

Quando uma pessoa normal acorda mal disposta e responde de uma maneira mais fria a alguém, as pessoas entendem e não dão importância. Mas quando uma pessoa perfeita perde o controlo por um momento e faz o mesmo, os outros tomam-no como uma espécie de ofensa pessoal e são capazes de ficar realmente chateados com ela. Como se as pessoas perfeitas não fossem também humanas, como se também não tivessem dias e noites menos boas, como se também não tivessem vários tipos de humor. É simplesmente suposto que estejam sempre bem dispostos e disponíveis. E, bem, isso também é chato como o caraças.

Nos últimos dois anos, eu tenho perdido muita coisa na minha personalidade. Pelo menos, é o que aparenta. Mas a verdade é que ganhei mais personalidade. Estou a perder a minha perfeição e isso é extremamente agradável. É agradável dizer não sem remorsos, é agradável ser arrogante sem me sentir responsável, é agradável não me importar em ser perfeita diplomata e perfeita tolerante. É agradável mandar alguém ir passear para determinado sítio desagradável, assim como mandar calar alguém. Pessoas perfeitas não podem fazer isso.

Por isso, cada vez mais eu acho que a perfeição é a maior força de opressão. E eu não quero ser perfeita. Quero ser eu própria. Quero viver. E quero errar, para poder ensinar.


5 comentários:

  1. Concordo totalmente contigo!
    Ser perfeito além de ter como pré-requisito não ter alma, é extremamente aborrecido!
    Ah e não é só caro para a alma... Olha que para a carteira também!!!

    Gostei muito do teu blog, já estou a seguir!

    Bjxxx

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É caro em todos os aspetos! hahah
      Muito obrigada :D

      Eliminar
  2. Olá, parabéns pelo blog está fantástico!
    Se puder visite o meu e se gostar segue :)
    Beijinhos

    http://queenssecret-anaaraujo.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá e obrigada! Vou sim dar uma visita :)

      Eliminar
  3. Que texto exelente Mas realmente a perfeição exigide nós o todo tempo. Mas existe um que foi Perfeito desde que nasceu... Esse foi Jesus...... O dia que chergarmos a Perfeição Seremos levados para morarmos Com ele....

    ResponderEliminar

Disclaimer

Todos os conteúdos aqui apresentados têm os direitos reservados aos respetivos autores. À partida, todos os textos neste blog são da autoria de Rafaela Silva, Aléxia Oliveira e Mónica Simão, exceto em referência contrária, e não devem ser reproduzidos, adaptados ou copiados de forma alguma sem consentimento prévio. Todas as fotografias com marca de água de Rafaela Silva ou RS Fotografia e Design têm os direitos exclusivos de Rafaela Silva. As fotografias com a marca d'água de Lemao Doce ou Limão Doce pertencem exclusivamente ao blog. E todas as imagens não assinaladas pertencem aos respetivos autores e provavelmente virão de sites dedicados a imagens de stock (ver: 'Recursos')
Com tecnologia do Blogger.

Seguidores

Google+ Followers