14 dezembro 2016

A culpa foi do mar • Texto



Ela tinha um medo terrível de construir o hoje, com medo de que o amanhã o destruísse. Ninguém a podia culpar realmente por isso, porque, na verdade, a culpa inicial foi toda do mar, com o seu vestido azul esverdeado e de renda branca.
Ela era pequena quando começou a construir castelos na areia rugosa e fresca. As janelas eram conchas reluzentes e cor de creme, os soldados vestidos de preto: mexilhões, ou o que restava deles.
Com todo o primor que se pode ter aos sete anos, o castelo de areia era uma maravilha, com ameias e merlões delineados pelo ancinho, e um rio de mar à volta da fortaleza, onde habitavam crocodilos imaginários.
No entanto, nem os soldados mexilhões nem os crocodilos de faz de conta impediam o eminente inimigo de invadir o castelo. Ele chegava a correr, com as suas saias transparentes, que borbulhavam em espuma, e pisoteava o castelo, e bebia-o até restar um monte de terra uniforme. O mar.   
Então cedo ela percebeu que não valia a pena construir castelos de areia, se depois o gigante azul lhe destruía a bela obra prima.
Mas isso foi só o início. E a culpa inicial foi do mar.
Mais velha, estudou arquitetura, mudou de cidade, para longe do litoral. A paixão de fazer castelos de areia, tão bem, ou melhor, quanto uma criança de sete anos podia fazer, era um presságio para uma futura sensibilidade no que tocava às artes. Ela queria construir a sua casa de sonhos. De momento vivia num daqueles apartamentos universitários, que pouco mais têm que uma cama e um armário lá dentro, então viajava pelo seu caderno, e projetava o seu mundo com um lápis, e corrigia as imperfeições com uma borracha.
Esboçava no papel as suas ideias. Desenhava petúnias de carvão, a abarrotar de um canteiro preso na varanda. O candeeiro de cristais a brilhar no teto da sala. Os utensílios de cozinha pendentes em suportes, em linha. Mas ela tinha medo de construir, um medo terrível. E as duas casas de banho, o salão, os três quartos, a cozinha, não passaram do papel. O projeto não passou de projeto.
Um dia conheceu um rapaz. Achou-o perfeito. Era a peça que faltava para dar cor às suas fantasias. Ele ofereceu-lhe petúnias num vaso, quando viu os desenhos dela; ofereceu-lhe a promessa de que juntos poderiam tentar erguer e materializar os desenhos que ela fizera.
Mas ela tinha medo. Um medo terrível de construir uma relação, que um dia poderia ser derrubada pelas saias transparentes e borbulhantes do destino. Silenciosas. Tinha medo de virar as costas e de ser apanhada por uma onda, de ser arrastada para um indefinido sem fundo, sufocando.  
Podemos adivinhar a resposta que deu ao rapaz e que deu a si própria.

Ela só desejava viver, novamente, mais perto do mar, para assim o culpar.

História também publicada no Spirit


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