16 novembro 2016

Romances como o amor de Romeu e Julieta • Texto

– Deixem de querer reviver os devaneios de Shakespeare



Sinceramente? Eu não sei o que se anda a passar na cabeça destes humanos.

Sempre que os observo, aqui de cima, no conforto da minha nuvenzinha, vejo-os desgostosos com o amor que têm.

Se não for um amor que mate, eles desdenham dele. Se não for uma paixão que não os deixe a chorar desde o início da noite até ao início da manhã, eles dispensam.

Um anjo fecha os olhos por uns cinquenta anos e acorda com este cenário na Terra, que só o faz desejar fazer uma outra sesta por mais um par de décadas.

Estes humanos, eles não querem um amor simples e caloroso, como o sol, que ajuda as plantas a crescerem e a florirem cada vez mais bonitas. Eles querem algo que os fira, que os magoe, que os deixe um caco, que eles próprios não vão conseguir colar.

É a nova moda agora? Romances como o amor de Romeu e Julieta? Deixem lá de amar os dramas. Amem-se mais a vocês mesmos.

Vocês não são melhores ou piores do que os outros, por terem um romance desconjuntado. Não queiram ser os reis ou as rainhas de uma tragédia grega qualquer. Tratem melhor o vosso coração. Não amem o que numa noite vos tira o ar, se depois vivem anos e anos sufocados.

Doces crianças, eu sei que têm de seguir o coração. Mas não desdenhem o caminho solarengo, e de tijolos amarelos, por onde também podem percorrer. O trilho pode parecer demasiado plano e monótono, mas, no fim, quem sabe vocês descubram que aquela casinha, que está no fim do percurso, é tudo o que sempre quiseram.

Não se atirem logo de cabeça para o caminho escuro, misteriosamente iluminado por plantas que emitem uma cor azul florescente. Não se deixem ludibriar pelas rosas pálidas, que adornam e perfumam esse trilho. Elas têm espinhos, que se vão entranhar nos vossos dedos e, provavelmente, coração. Por mais bonitas que forem, por mais delicioso que for o seu perfume, flores são flores, e, inevitavelmente, vão acabar por murchar.

Olhem mais para o que vos rodeia, atraiam-se mais pelo que vos faz feliz e menos pelo que vos faz miseráveis.

Eu prometo que vou tentar agarrar o Cupido por umas semanas. Convidá-lo para jogar xadrez angelical e depois atar-lhe as mãos e os pés para que ele não faça mais com que caminhos irregulares pareçam tão convidativos. Mas vocês, durante esse período de tempo, aprendam a descobrir o tipo de amor que querem e que vos vai fazer feliz.

Deixem de querer reviver os devaneios de Shakespeare. Romances como Romeu e Julieta quase nunca acabam bem.


A imagem utilizada na capa é um pormenor de uma pintura a óleo de Raphael Sanzio; Sistine Madonna.
História também publicada no Spirit.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Disclaimer

Todos os conteúdos aqui apresentados têm os direitos reservados aos respetivos autores. À partida, todos os textos neste blog são da autoria de Rafaela Silva, Aléxia Oliveira e Mónica Simão, exceto em referência contrária, e não devem ser reproduzidos, adaptados ou copiados de forma alguma sem consentimento prévio. Todas as fotografias com marca de água de Rafaela Silva ou RS Fotografia e Design têm os direitos exclusivos de Rafaela Silva. As fotografias com a marca d'água de Lemao Doce ou Limão Doce pertencem exclusivamente ao blog. E todas as imagens não assinaladas pertencem aos respetivos autores e provavelmente virão de sites dedicados a imagens de stock (ver: 'Recursos')
Com tecnologia do Blogger.

Seguidores

Google+ Followers