16 maio 2016

Não me leves para a cama: leva-me a ver as estrelas • Texto


Leva-me a um café pequeno, onde se toque música francesa dos anos 80. Leva-me à Serra da Estrela e deixa-me adivinhar como se chama a árvore de onde caiem essas folhas de cinco pontas, que atapetam o chão de amarelo. Ou então não leves. Mas sobe comigo cento e tal degraus e oferece-me um pedaço de serra através de binóculos. Sabes, daqueles presos ao chão, em que pões uma moedinha e demoras muito tempo a encontrar o sítio para onde queres olhar.

Dá-me a mão. Se estiver a chover, vem saltar poças de água comigo. Nunca saltei poças de água e estou mesmo tentada a comprar umas galochas. Daquelas com florzinhas.
Se fizer sol, leva-me a passear. Não quero Paris, Nápoles ou Xangai. Quero a tua mão na minha, a calçada portuguesa sobre os meus pés e nós de destino a uma esplanada com gelados muito bons ou a um cinema com preços muito em conta.

Não me leves para longe – de vez em quando pode ser. Leva-me ao sorriso mais próximo ou ao teu sítio favorito.
Leva-me a ver as catedrais da cidade, os desenhos que se escondem pelas ruelas ou os fados que se cantam nas tascas pequenas.

Não tenho medo de dores nos pés. (Só de dores na alma). Por isso não penses que estarei a fazer um grande sacrifício ao percorrer ruas e vielas. Não te vou deixar a meio do caminho.

De noite, não me leves para a cama. Leva-me a ver as estrelas. Se souberes os nomes das constelações ensinas-me? Se não souberes também não faz mal. Contaremos estrelas cadentes. Se não houver estrelas cadentes para contar, conta-me histórias.
Mas, essencialmente, diz que gostas de mim. Di-lo alto e bem claro. Ou sussurrado e entrecortado. Mas di-lo. Não quero mensagens ou cartas escritas, por mais bonita que seja a tua letra.
Quero um “olá, gosto de ti” da tua boca. Quero algo esporádico e verdadeiro, mas acima de tudo, corajoso.

Não quero promessas, nem planos para daqui a três anos. O futuro lá se encarregará disso, se tiver de ser e de acontecer.
Por agora, pega-me na mão e leva-me daqui.
Eu sei que está a escurecer, mas a noite ainda é pequena e a calçada ainda existe lá fora. Então, não me leves para a cama. Mostra-me o mesmo céu que veríamos em Nápoles, Paris e Xangai. Dá-me memórias e histórias. Leva-me a ver as estrelas.


Imagem retirada daqui.

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