27 abril 2016

Querido Romance • Texto



Querido romance, 

Espero que compreendas o que te digo sem necessidade de simplificá-lo. Simplificar o que tenho a dizer-te é transformá-lo em algo cru e nu. Não é apenas o intocado que é puro, sabes? Por vezes, o puro pode ser algo que já foi mexido e remexido diversas vezes. A pureza é um estado de consciência, não de excelência. Como o amor e o ódio - são as coisas mais puras que a humanidade conhece. Puras por serem genuínas, sem margem para mentiras. E a genuidade é a mais honesta das purezas.

Por isso, vou ser honesta contigo - vou ser pura. Vou despir-me dos medos e das esperanças, das expectativas e das aversões. Vou despir-me de preconceitos e conceitos, noções e definições. Vou despir-me totalmente, largar todas as roupas e com elas as vergonhas, sem constrangimentos, sem arrependimentos. Sei que é o melhor a fazer e que ambos merecemos a verdade. Tu mereces conhecê-la e eu mereço reconhecê-la. Não posso mentir-me ou omitir-te eternamente aquilo que há muito devia ter sido revelado. 

Passo então a explicar-te as duas coisas mais essenciais em toda esta carta; aquilo que efetivamente me levou a escrevê-la após tomada a minha decisão. 

A primeira é que eu te amo. Com toda a minha alma, com todo o meu coração, com todo o meu ser, com toda a minha consciência e com toda a minha fé. Amo-te com tudo o que há com que amar, e amo tudo o que há para amar. Desde a tua alma ao teu ser, do teu coração à tua fé, da tua consciência às tuas palavras. A pureza do teu amor - algo que eu jamais compreenderei; como podes amar-me? - e a pureza da tua razão. A tua logos miraculosa que me faz mover montanhas e secar oceanos. Escalaria uma torre com uma simples palavra tua. Na verdade, eu faria qualquer coisa -qualquer coisa - com uma simples palavra tua. Bastava pedires. Bastava pedires, eu fá-lo-ia. Fosse o que fosse. 

Amo-te tão intensamente que acho que deixei de amar-me. Deixei de amar-me a mim própria porque é muito mais gratificante amar-te a ti. Amar o teu olhar, o teu sorriso, beber as tuas palavras com amor, receber os teus braços com amor, amar-te. Os gregos antigos teriam orgulho de ti. O ser humano perfeito; criado à imagem dos deuses, dotado da razão dos deuses, a beleza dos deuses e o conhecimento dos deuses. Dotado ainda de uma sensibilidade cupídica, de uma força de vontade ariana, de uma coragem persefónica. E só como extra, fizeram-te amar-me. Como podes amar-me?

A segunda revelação é menos utópica. Não é o meu desejo, é a minha necessidade. É a necessidade de afirmar-me em mim mesma e tornar a amar-me. De aprender a controlar-me, a lutar contra os impulsos do corpo e a ansiedade da alma, o tremor nas pernas e o acelerado ritmo cardíaco. Intimidas-me, fazes-me sentir pequena e supérflua. Mais ainda quando dizes que me amas. E isso amarra-me ao medo de perder-te. Amarra-me a ti de uma forma obcessiva.

Preciso de libertar-me, querido. Preciso de libertar-nos.

Preciso de ir e deixar-te ir. Só um de nós pode ficar e eu já reservei o meu bilhete para partir. A minha viagem está garantida e, embora toda a minha vontade grite que fique, estou resoluta em ir. Por uma vez, tenho de pensar em mim. O coração aperta-se no seu canto como quem protesta com greve de fome, ameaçando parar de bater - de viver -, tal é a saudade que já sinto ao escrever sobre a minha partida. A dor é física e só de pensar na distância ela aumenta. Mas é para o meu bem. Para o nosso bem.

Meu amor, eu amo-te tanto. E é por amar-te tanto que eu peço-te - deixa-me ir. Eu preciso de ir para sobreviver. Preciso de viver. Preciso de sentir o novo.

Junto deixo a minha aliança e toda a saudade. Não posso levá-las comigo para onde vou. Espero que consigas cuidar delas. Mas não deixo o meu amor - é demasiado precioso e precisarei dele. É ele que vai manter-me em pé nos próximos tempos.

Até nunca mais, meu romance.

Amo-te. Ontem, hoje e jamais sempre.

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