23 março 2016

A Peste • Texto



Ele sente-a. A peste. Dói demasiado e não sabe como pará-la. Sente-a nos pulmões, sente-a no coração, no estômago, na cabeça. Sente-a em cada nervo sob a pele. Sente-a queimar, como ácido sobre chapa, corroê-lo de dentro para fora. Os músculos a apodrecer, vermes a consumir-lhe os olhos. Um cancro intrínseco no cérebro, pulsando e dilacerando o que lhe sobra de sanidade. A força destilando, os ouvidos captando gritos pungentes através de um véu de nebulosidade. Falha-lhe a voz. Arde-lhe a garganta. O sangue corre-lhe pela laringe em direção aos pulmões mirrados. Não respira. Cada golfada de ar é absorvida pelo mal dentro de si. Erupções roxas e azuis crescem-lhe na pele, deformam-lhe o rosto outrora atraente. As veias untadas com crude, unhas arrancadas com lingotes. 

O corpo repudia os antibióticos, todos os antídotos, ervas e cataplasmas. A lividez da sua vida é evidente nos tremores que o abalam. Esvai-se lentamente, a cobro da nuvem fúnebre que sobre ele paira, das vagas flamejantes das convulsões, da negligência do seu sistema imunitário. As artérias tornando-se nereidas, nadando no sangue negro da enfermidade.

Ele sente-a. A peste. A consumi-lo lentamente, impiedosamente. A deixá-lo grogue pela dor angustiante, dormente enquanto luta pela vigília. Mas ele sabe que irá. Ela aproxima-se a passos leves, sonoros, ritmados com o bater sôfrego do seu coração. A morte, doce morte, bela morte. De hábito negro, olhos fundos, mãos gélidas em braços dúcteis, cada vez mais próximos para o abraçar. 

Ele sente-a. A peste. Não a Peste. Uma peste. Condecorada com tantas vidas, heroína do inferno. Ele sente-a. Em pontas de pés sobre o limbo. Agarra-se à vida, sentindo o chicotear das cordas da cítera, a melodia que o acompanha à morte.

Ele sente-a. A peste. E com clorofórmio embebido em vermes, consome o cocktail de pesadelos que ela oferece. A peste.


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