29 fevereiro 2016

Quando terminarmos não me chames de puta • Texto








Quando terminarmos, não me chames de puta.

Eu gosto tanto de ti. Agora dormes na cama; com uma gata aninhada aos teus pés e a outra, enrolada sobre si, a roçar no teu braço. Pareces um anjo, com a luz dourada do sol, que escapa pelas frestas da persiana, pousada numa das tuas bochechas. Os teus lábios estão entreabertos, os olhos fechados serenamente. O quarto cheira a ti. Tu cheiras a água de colónia e a tabaco. 

Amo-te profundamente. Gosto de tudo em ti. Até dos teus defeitos, das tuas manias, dos teus olhos desconfiados e distantes; profundos, que me dizem que um dia te poderei perder. Que me vais virar costas e voar. Ou afundar.

Estimo-te tanto. Quando terminarmos, não me chames de puta. Eu sei, se lesses isto dirias que eu estaria a ser pessimista; mostrar-me-ias o teu olhar gelado e dirias para acabar com os disparates. Mas é uma opção muito válida, esta, o de um dia deixarmos de namorar. Hoje eu amo a tua presença, o teu carinho, o modo de como falas apaixonadamente das tuas paixões. E tu amas-me, amas qualquer coisa de interessante que viste em mim e que continuas a ver, mesmo com o passar dos meses.

Eu sei o que tu dirias, se eu te fizesse tal pedido: “quando, e se, terminarmos, não me chames de puta”; sei a exata forma de como agirias e o brilho de indignação que surgiria nos teus olhos. Escuros e com a força gravitacional do universo. Os planetas não giram à volta do sol, giram à volta dos teus olhos.

Dirias que jamais me chamarias isso, irias evitar abraços durante uma hora, evitar olhar-me durante meia hora, deixar-me a levitar, no espaço, sem lua, e exclamarias “mas estás parva?”. Só que eu não estou parva, nem idiota. Eu estou apaixonada e não suporto a ideia de que, quando e se, tudo o que construirmos falhar, me chames de puta.

Ouvimos os nossos amigos chamarem isso às ex-namoradas. Ouvimos as nossas amigas dizerem que os antigos amores eram verdadeiros cabrões. Alguns deles têm razão e motivos para fazer afirmações dessas. Mas outros não. Eles e elas só têm o orgulho ferido e um espaço vazio e impreenchível, pensam, no coração.

Eu sei que é lamechas, mas amo-te. Amo conhecer-te tão bem, viver os teus sorrisos e desvendar o teu olhar. Gosto de andar de mãos dadas contigo, e da maneira gulosa de como abanas a cabeça, em afirmativo, se te pergunto se queres um rebuçado do teu sabor favorito.

(“Mas, se me amas tanto, como é que podes pensar que te chamaria um nome assim tão feio?”, podes perguntar. Tu deves saber que o amor, quando acaba, nos deixa amargos. Não podes por um fruto ácido na boca e prometer que não vais fazer uma careta.

Percebes?)

És a única pessoa a quem eu mostro os meus quadros, antes de estarem terminados; aceito os teus elogios e críticas com a maior da naturalidade, como o teu amor.

Confio em ti. Confio em ti todos os dias. Confio em ti como confias em mim. Gosto de te ver sorrir com os olhos.

Gosto dos teus pequenos trejeitos, de reparar nos ínfimos detalhes, que desvendas sem querer e ninguém vê, e de guardá-los para mim, como segredos.

Gosto do teu amor e de te amar. Dos teus abraços com a força dos deuses e dos teus beijos na testa. Ternurentos.

Só não gosto quando te peço que não fumes nem bebas tanto e de tu fingires que nem me ouves. E olha que até disso gosto, do olhar de esguelha que me lanças (mas disso não podes tu saber), como se dissesses que não vale mais a pena insistir nesse assunto. 

O que não sabes é que vale sempre a pena insistir em ti.

És o meu melhor amigo. E melhor amor.

Hoje amo-te, ontem amei-te, amei-te há um ano atrás e provavelmente numa outra vida.

Por isso, por tudo o que temos hoje, por respeito, quando (e se) tudo terminar, não me chames de puta. 

Por mais que o teu orgulho fique ferido, por maior que seja o buraco de bala que se alojar no teu coração, não me chames isso. Chama-me de egoísta, fraca, estranha, ou diz que eu não lutei tanto por ti como tu lutaste por nós. Mas não desconfies do meu amor e não me chames de puta.

Uma puta é, além de uma palavra feia, uma senhora que vende o corpo a vários homens. E nem mesmo todo o dinheiro ou homens do mundo me afastariam de ti. O meu coração é teu, que me serviria ter um castelo todo em ouro se eu não o pudesse partilhar contigo?

Se algo correr mal e tivermos de dizer adeus eu sei que não será por causa de outro alguém. És tão importante; quero que o saibas. Que o sintas, como se uma bola de basebol te atingisse em cheio no estomago. Eu sei, má comparação. Mas olha que levar com uma bola a 140 quilómetros por hora não deve ser algo que passe despercebido.

Agora estás a espreguiçar-te na cama, como um anjo dorminhoco. Acordas as gatas e caminhas com pés descalços até mim. Enterras o queixo no topo da minha cabeça e perguntas-me o que estou a escrever. “O que é que a princesa está a escrever?”. Eu sorrio e digo “nada”.

Os teus olhos desconfiados são duas galáxias sonolentas, lentas como a órbita de Plutão. Agora habito em Plutão; cheira a tabaco e a água de colónia.

“Adoro quando me chamas princesa”. Mudo de assunto. “E irei sempre chamar”. Respondes.

Talvez seja mentira, mas não o digo. Só quero que, se algum dia terminarmos, não te esqueças que, em tempos, me chamavas assim.



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