24 fevereiro 2016

A Paragem • Texto


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Levanto-me para mais um dia de trabalho. Visto-me, arranjo-me sem grandes contemplações, dirijo-me para a paragem de autocarros. Uma chuva muito miudinha que não ameaça grandes dilúvios salpica-me o cabelo. Ignoro-a. Uma vizinha, com os seus dois filhos, e um senhor idoso aguardam debaixo da coberta. O senhor idoso e as crianças estão sentadas, a mãe encostada ao vidro da paragem. Encosto-me ao lado oposto, a mala debaixo do braço e um suspiro cansado retido na garganta. Este tempo, este trajeto, esta paragem e este quarteirão já são tão rotineiros que nada de especial parecem ter para mim. Ainda assim, observo tudo em redor, retendo aquilo que já vi mais de mil vezes, revendo aquilo que já conheço, como se procurasse algo de novo.

Venho sempre mais cedo para a paragem. No mínimo cinco minutos de antecedência. Este autocarro nunca chega exatamente a horas. Quando chega, continuo a conter o suspiro. Como de costume, está cheio. Alguém dá o lugar ao senhor idoso. Algumas pessoas vão de pé - a vizinha, os seus filhos, eu e mais dois jovens incluídos. Seguro-me às pegas penduradas do tecto, equilibrando o peso entre os pés e os joelhos. A mala está pendurada no meu ombro. Olho distraidamente através da janela grande, ignorando as cabeças que se atravessam no meu campo de visão, vendo a paisagem a mover-se rapidamente. As casas, as árvores, os muros, a antiga capela do tempo dos Romanos, um campo agrícola há muito abandonado, um baldio cheio de silvas, um café, a rotunda. Troco o peso do meu corpo para o lado direito conforme o autocarro contorna a rotunda, depois volto a equilibrar-me nos dois pés. A estrada continua. O condutor vira novamente à direita após um semáforo, seguindo por uma estrada que apenas recentemente foi alcatroada. Curvas e mais curvas, sempre a subir, até aparecer outra rotunda. Torno a equilibrar-me na direita. Mais curvas, o autocarro pára e esvazia mais de metade dos seus passageiros junto à escola. As portas fecham-se e eu largo as pegas. Ajeito a mala ao ombro e vou sentar-me num dos lugares que ficou livre. 

A vizinha está no lugar à minha frente, cara com cara. Um dos seus filhos saiu aqui, o outro foi sentar-se lá atrás. O senhor idoso ainda está no lugar inicial. Olho distraídamente em redor, observando o ambiente dentro do autocarro. Encontro muitas caras conhecidas, todas elas nos seus lugares habituais. A maioria dos passageiros desta carreira senta-se sempre no mesmo sítio. Há dois jovens em particular que nunca vi noutro lugar que não aquele terceiro banco na fila da direita - o mais sossegado sempre à janela, o outro, um que costuma falar muito alto e dizer muito palavra, mesmo ao lado. Mas ainda não cheguei lá - ainda estou focada nas filas do fundo. 

- Onde está o meu filho? - pergunta a vizinha, despertando-me. 

- Lá atrás. - sorrio-lhe, ela vira-se, vê o filho e, ao olhar para mim, ri-se. Encolhe os ombros. Eu continuo a inspeção, observando discretamente cada rosto que encontro, absorvendo os traços que já conheço tão bem, recordando os nomes destas pessoas. Regra geral, ou estão a olhar pela janela ou a conversar animadamente uns com os outros. É rara a vez que alguém se depara com as minhas observações. Mas desta vez é diferente. Desta vez, alguém foge à regra. 

Ao chegar ao terceiro lugar da fila da direita, encontro o olhar escuro do jovem que costuma estar junto à janela. Há algo de diferente nele. Os olhos são mais escuros e o rosto mais oval. As sobrancelhas mais grossas, o cabelo mais curto. Resquícios de barba junto às patilhas, olhos mais amendoados, um olhar mais frio. Demoro algum tempo a perceber que este não é o rosto que eu esperava encontrar. Este não é o mesmo jovem que costuma estar ali sentado. 

O meu olhar fica preso no dele durante algum tempo. Tem uma expressão quase neutra, não fossem as sobrancelhas ligeiramente arqueadas. Conheço esta expressão, a cinésia já ma explicou, mas não sei como defini-la. O seu olhar é pesado, observador, morno. Como se eu fosse uma pintura abstrata, que ele tenta desesperadamente compreender além dos traços aleatórios e dos rabiscos ilegíveis. Sustenho-lhe o olhar durante mais tempo que o que seria socialmente correto. Compreendo que ele já me estava a observar alguns segundos antes de eu me aperceber dele ali. É atraente. Talvez das pessoas mais atraentes que já vi por estas bandas. Bastante atraente. O coração falha duas batidas. Talvez três, talvez quatro.

Apercebo-me que ainda estou a sorrir da atrapalhação da vizinha, há alguns segundos atrás. É-me tão fácil sorrir que por vezes não me apercebo que o faço. Tendo em conta isso, e tendo em vista que este jovem é um estranho, e que eu estou a sorrir enquanto o olho nos olhos, decido que já é tempo de desviar o olhar. Não seria aconselhável manter um diálogo silencioso deste tipo com um desconhecido. 

Desvio suavemente o olhar, focando-me algum ponto invisível mais ao fundo. Contudo, é-me impossível não reparar no seu vulto, perto do canto do olho, que ainda me observa. Aguento tanto quanto posso para não tornar a olhar para ele, acabando a olhar pela janela como forma de prevenção. Quando volto a levantar os olhos, é ele que está concentrado na paisagem lá fora. Finalmente respiro. Nem me apercebera que tinha sustido a respiração. 

Vou deitando olhares rápidos e discretos para o jovem ao longo da viagem, até à próxima paragem. Em momento algum ele me responde com o mesmo olhar. Parece sempre focado no condutor ou na paisagem. O modo como evita esta direção parece-me um tanto forçado - mas quem sou eu para falar? Ele parece-me vagamente familiar, embora eu tenha a certeza que nunca o vi antes. Isso incomoda-me um pouco, mas não dou atenção ao pormenor. 

O autocarro pára de novo. Os travões produzem um som incómodo, mas já habitual, e as pessoas começam a levantar-se. Só então me apercebo que há uma mulher ao lado do jovem desconhecido. Pela idade, deve ser a mãe - ou qualquer outra familiar. É claro como água que estão acompanhados um do outro; A sua linguagem corporal denuncia-o. Olho para ele pela milionésima vez, só então parando para pensar na idade dele. Não há-de ser muito mais velho que eu - talvez três, quatro, cinco anos? 

A senhora que o acompanha levanta-se. Ele levanta-se a seguir, apoiando-se nos bancos para descer da plataforma. Veste um casaco de pele preto que lhe assenta bem. Segue atrás da senhora. E embora eu busque desesperadamente o seu olhar de novo, como se isso me valesse de alguma coisa, ele não torna a dirigir o olhar na minha direção. A vizinha levanta-se também e sai atrás deles. Eu salto para o lugar onde ela estava. O jovem e a acompanhante desaparecem quando a porta do autocarro se fecha. 

A viajem recomeça. Revejo a cena várias vezes até chegar ao meu destino. Ao descer na minha última paragem, olhando para o edifício do outro lado da estrada, eu páro.

Suspiro. O mesmo suspiro que eu vinha a reprimir desde a primeira paragem, aquele que eu evitei quando me sentei, o que me esqueci de dar quando o jovem abandonou o autocarro. Sinto-me mais aliviada assim que me liberto desse ar reprimido. Encho novamente os pulmões de oxigénio. Acho que estou pronta para começar um novo dia. Expiro. 

Uma amiga minha espera-me junto ao portão. Ao chegar junto dela, sorrio. Então, baixando a voz a um murmúrio, segredo-lhe:

- Acho que me esqueci de como se bate o coração. 

Ela ri-se durante um longo tempo. Eu conto-lhe o que aconteceu. Seguimos para o nosso trabalho. Mas o que ela não sabe, nem ninguém jamais adivinhará, é que o meu coração parou realmente de bater. Quase não o sinto, agora, simplesmente por pensar nesta manhã. 

O destino é uma coisa cruel, não é?


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