07 novembro 2015

Faculdade: E Agora? • #4 - Vamos falar da Praxe


Este post faz parte de uma série.
Para leres outros artigos do género, acede: Faculdade: E Agora?
Vamos só, antes de tudo, deixar claro que este artigo foi escrito há umas semanas e, mais do que isso, que as pessoas devem compreender que opiniões são algo pessoal. Se não concordas com o que eu digo, tens todo o absoluto direito de não concordar. Mas não venhas para aqui armado em nazi dizer o que eu posso ou não pensar ou o que posso o não dizer. Partilha a tua opinião se assim o entenderes, aceitarei. Só não aceitarei que haja aqui insultos, quaisquer tipo de difamação e citação descontextualizada do que eu escrevi. Que o que ocorreu no meu último artigo sobre a praxe não se repita. Fiz algumas generalizações em ambos os textos, mas só sentirá ofendido por elas quem achar que se encaixa. Procurei ao máximo evitar generalizações, mas não sou mágica nem vou estar aqui a mentir quanto àquilo que considero ser uma realidade. Se vês a realidade de uma forma diferente e tens outra perspetiva, está à vontade para a partilhar. Mas vamos lá ser civilizados e crescidinhos. E, quando eu digo batatas, tentem não interpretar feijões...

A Praxe - uma expressão que tanto é divinizada quanto demonizada, onde as opiniões divergem e de onde diversos conflitos surgem. Se há quem adore, há quem odeie. Já eu, gosto de pensar que estou algures no meio. A Praxe nem me aquece nem me arrefece. Mas já vamos falar sobre isso.

A Praxe - que nos últimos anos se tem resumido mais em "praxe" com letra minúscula - é uma das mais conhecidas tradições da vida académica. Oriunda de Coimbra, entretanto já se vulgarizou em quase todo o país, e nos últimos anos tem sido alvo de grandes polémicas e controvérsias. E porquê? Porque há sempre uns idiotas que pegam em coisas interessantes e as tornam  indesejáveis. 

A Praxe, teoricamente dedicada à integração dos novos estudantes na vida académica e na faculdade em geral, origem de amizades e de laços, tem tido o seu nome profundamente manchado devido à atuação de uns quantos energúmenos que a usam para pôr em prática as suas tendências sadistas e vinganças mesquinhas (já agora, leiam este artigo brilhante de um jovem que fala muito bem sobre o assunto). Desde então, as declarações anti-praxe têm vindo a crescer drasticamente - mas vindas, sobretudo, de pessoas que não percebem um pingo do assunto. (Não me refiro aos estudantes anti-praxe; refiro-me às pessoas que acham que a praxe devia ser eliminada).

Não sou da opinião de que só quem está no ramo de algo é que pode opinar sobre isso. Não preciso de ser nutricionista para opinar sobre nutrição. Mas é preciso conhecer bem o assunto para se falar sobre ele. Posso não ser nutricionista, mas devo ter um estudo cuidado sobre nutrição. É como a política: toda a gente fala sobre isso, mas poucos sabem uma linha sobre isso (o que é, logicamente, errado). Assim, para se falar sobre a Praxe, é importante que se tenha conhecimento de facto - e que não formemos uma opinião tendo somente os dramas da comunicação social como base de conhecimento. Se queres falar sobre a Praxe, informa-te sobre ela. E tem dois dedos de testa para filtrar a informação e formar uma opinião lógica.

Ora, uma coisa que eu me tenho apercebido nos últimos anos, antes mesmo de ser caloira, é que os caloiros têm uma certa tendência de formatar os seus cérebros quando chega a altura de ser praxados. E agora que sou efetivamente caloira, isso apenas se tem confirmado. Apesar de, na minha escola, as praxes não serem consideradas "abusivas" (e há que estabelecer o que é abusivo, porque, de certo modo, pode ser um pouco subjetivo), é frequente ver caloiros a executarem certas praxes contrariados. E isso é inadmissível. Em qualquer lugar. As pessoas têm de ter a capacidade de dizer não. 

Vejam o post original AQUI.


Como muito bem diz o Guilherme do Por Falar Noutra Coisa, as pessoas têm de compreender que a praxe é uma coisa opcional. Não vão chover gatos nem vai ocorrer um tsunami se não fores à praxe ou se te recusares a fazer umas quantas.

Depois de anos e anos de aulas de Cidadania, Direitos e Deveres Cívicos, disciplinas dedicadas a todo o tipo de questões filosóficas e sociais e leituras e releituras da Carta dos Direitos Humanos, parece que as pessoas se tornam uns autênticos autónomos quando chega a altura de ser praxado (ou praxar). É triste perceber que, para muitos caloiros, a praxe é sinónimo de fim do livre arbítrio. Simplesmente seguem o rebanho e submetem-se a coisas que os deixam desconfortáveis apenas porque se sentem na obrigação de o fazer.

Há quem ache que, quando as praxes correm mal, a culpa é dos doutores. Há quem ache que é dos caloiros. Já eu, acho que é dos dois. É tão idiota quem inventa uma praxe estúpida, como é quem aceita fazê-la. Ou seja, tão idiota é o praxante quanto o caloiro. O praxante, pela sua falta de criatividade e enorme capacidade de ser um cretino. E o caloiro, pela sua falta de caráter e pensamento crítico e incapacidade de dizer que não. A culpa tanto é de quem manda fazer quanto de quem faz. (E só para esclarecer através da repetição: este parágrafo refere-se às praxes abusivas, e não se trata de uma generalização).

Dizer que NÃO, quando nos sentimentos desconfortáveis com algo, não é só um direito como é também um dever. Devemos ter respeito por nós próprios. Eu própria já me recusei a fazer algumas praxes, faltei a outras, e fui a muitas mais. E sabem o que é que os meus doutores fizeram? Respeitaram-me. Claro que tentaram demover-me, mas aceitaram. E é assim que deve ser. O caloiro decide o que quer ou não fazer, e os doutores devem respeitar. Ninguém deve sentir-se excluído por não ir à praxe e ninguém deve ser marginalizado por isso. E, tal como eu, há muitos caloiros e caloiras. Aliás, leiam também este desabafo de uma jovem a quem a praxe não soube muito bem. Ou este, de um jovem que está a gostar bastante da experiência. Sim, não ir à praxe dificulta a integração. Sentimo-nos um pouco de parte. Mas jamais devemos sentir que devíamos estar lá, não quando a praxe nos deixa desconfortáveis. E, além disso, há muito mais formas de nos integrarmos.

Mas, além de tudo isso, é importante que os caloiros tenham noção da realidade. Não só saibam dizer não, como saibam dizer que sim, ou, mais importante, saibam as regras. É muito importante ler o Código de Praxe. Se não o leres, não te poderás defender. Nem poderás dizer que a culpa é dos doutores, porque a verdade é que tu é que escolheste manter-te desinformado. Além disso, o Código de Praxe diz-te o que é e o que não é permitido, e poderás, sem qualquer risco, recusar-te a fazer coisas "não permitidas". E, acima de tudo, não te deixes enganar! Alguns praxantes têm o hábito de inventar regras só para intimidar os caloiros e levá-los a ser praxados pelo medo. Por isso, aqui fica uma lista de factos que deves ter em mente.

  • Se não fores praxado, não podes praxar. É lógico e justo. E verdadeiro.
  • Praxado ou não, podes trajar. Se te disserem que não podes trajar se não fores praxado, não acredites. Podes, sim. 
  • O caloiro pode trajar. Mas poucos o fazem - ou por ignorância, ou por opção. Desde há uns anos para cá, criou-se a tradição de apenas se começar a trajar após a cerimónia de traçar a capa, o que confere um simbolismo muito maior ao uso da Capa e Batina. MAS, se um caloiro quiser trajar, ele PODE. E ninguém pode impedi-lo. Podem ler sobre isso neste artigo sobre o traje académico.  
  •  artigo do PraxePorto desmitifica muitos mitos que circulam no que toca às principais questões da Praxe e do Traje Académico.
  • O que é realmente a praxe? Este artigo explica.
  • Não se pode praxar sem estar trajado. Lê sobre isso aqui.

Enfim... são muitas as mentiras e mitos que circulam por aí, por isso, é preciso estar informado sobre o que é verdade e o que não é. E, por vezes, os próprios Códigos de Praxe estão errados, mas isso é algo mais... complicado.

Em suma: informem-se, todos vocês. Estudantes ou não, caloiros ou veteranos, INFORMEM-SE. Nos tempos que correm, não há desculpa para não saber o mínimo dos mínimos. 

Por fim, recomendo uma reflexão emocionante de um jovem que não foi colocado, mas ainda não perdeu a esperança.

Resumindo e concluindo: Saber dizer NÃO é tão ou mais importante quanto a integração! 

Para MUUUUUUITA mais info sobre a Praxe, o Trajar e tudo o que tem a ver com a Vida Académica, dêm uma vista de olhos neste blog: Notas e Melodias.

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