15 outubro 2015

Nunca aprendemos • Texto

texto bem antiguinho

Quantos de vós - nós - já pararam para pensar no peso das suas próprias palavras? Ninguém o faz até as ouvir, ditas por outro alguém. Pode não ser intencional, pode não ser com crueldade - mas há palavras que, ditas na altura errada, no local errado, à hora errada e com a entoação errada, magoam. Marcam quem as ouve de tal forma que essa pobre alma condenada julga que jamais conseguirá tornar a ser quem era. Para os menos dramáticos, ou os mais acostumados, as malfadadas palavras são apenas "mais algumas para a coleção". 


Nós nunca aprendemos, pois não?

Depois de tantas bofetadas, tantos baldes de água fria, tantos pontapés mal dados, nós continuamos a cair no mesmo erro. O mesmo estúpido e inútil erro. Aquele que nos afunda durante tanto tempo, e depois nos traz de novo à superfície, tal qual nadador-salvador. E que nadador-salvador! Deixa-nos eufóricos, alegres, chegamos mesmo a acreditar que estamos felizes. Iludimo-nos a nós próprios, mentimos a nós próprios, acreditamos vivamente que aquilo que sentimos - ou pensamos sentir - é real. 

Mas nós realmente nunca aprendemos, pois não?

Continuamos a ser calcados, afogados, destroçados, e nada fazemos para o impedir. Somos masoquistas e permitimos aos outros que sejam sádicos. Ou talvez não sejam, mas nós sentimos que são. 

Sentimo-nos perdidos - aliás, ficamos. Sem rumo, sem objetivo, sem amor próprio. Toda a auto-confinça e auto-estima que tínhamos vindo a desenvolver e a fazer crescer em nós desde há tanto tempo, com tanto cuidado, parece morrer de um momento para o outro. Meses, se não anos, para construir uma impenetrável barreira de betão e aço, que nos mantivesse afastados dos perigos. E meros milésimos de segundos para que essa mesma barreira seja destruída, reduzida a cinzas e destroços, atacada do interior. 

O coração tem dessas coisas. Destrói-nos e ao que nos rodeia. A aura alegre que antes nos protegia passa a ser negra e amaldiçoada. O brilho do nosso olhar, o mesmo brilho que resplandescia quando víamos o alvo da nossa paixão, morre. Tranforma-se num brilho sofrido, uma gema danada cuja remoção da mina causa uma derrocada.

É assim que o amor é. É assim que o coração é. É assim que a vida é. Meros humanos, que sabemos nós sobre a paixão? Apenas a sentimos, despreocupados, desenganados. E quando a luz divina da realidade nos ilumina, cegando-nos com as duas lâminas dolorosas, nós despertamos. Despertamos, e desejamos nunca o ter feito. Antes continuar imersos no fundo da ilusão, privados de gravidade, voando nas asas da felicidade, a acordar para a dura infelicidade. 

Somos traídos, abandonados, mas nunca aprendemos. 

Não, nunca aprendemos. 

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