28 setembro 2015

Faculdade: E agora? #2 - Reflexão de uma Caloira Desiludida • Pessoal



Sou oficialmente caloira há pouco mais de duas semanas, mas já muita coisa aconteceu entretanto. Se na primeira semana, dedicada exclusivamente aos caloiros, as coisas foram demasiado agitadas, então na segunda, com o início das aulas, as coisas foram demasiado sossegadas. Mas, mais importante que tudo, estou um pouco desiludida com esta entrada na minha nova vida. Na minha última reflexão relativamente a isso, eu estava com grandes expectativas, ainda que com algum receio e nostalgia.

Contrariamente ao que eu esperava, nada mudou assim tanto em mim. Na verdade, continuo a ser a mesma pessoa que sempre fui - ainda que um pouco mais chata. Talvez - talvez - apenas um pouco menos constrangida. Mas, ainda assim, não mudei como julguei que mudaria.

Para começar, a primeira semana foi um autêntico desperdício de tempo. Ao contrário daquilo que toda a gente me disse, da alegria que quase toda a gente sentiu com ela, eu sinto que foi um autêntico desperdício de tempo. E sim, eu é que sou a ovelha negra. Toda a gente parece ter adorado a primeira semana, exceto eu. Para mim, ter passado a semana toda de quatro, de três ou de todo, com a cabeça enfiada em rabos alheios ou com pés na cara (por falta de espaço), sentada sobre os calcanhares entalada entre duas centenas de colegas todos comprimidos entre os outros, a berrar obscenidades a plenos pulmões e a tratar os doutores (alunos mais antigos) como se fosse divindades, não foi minimamente agradável. E, se ao menos tivéssemos feito algo de relativamente útil - como conhecer os espaços da faculdade, fornecer-nos informação crucial, levar-nos a conhecer a cidade, dar-nos um pouco da História de Coimbra, etc. - tudo teria sido muito mais suportável. Mas não houve nada disso. Não houve um único momento em que eu dissesse "Isto vai-me ser super útil para a minha estadia aqui."

Sim, eu tornei-me uma pessoa um pouco mais solta. Gritei, dancei, cantei e pulei como toda a gente, sem vergonhas, sem constrangimentos, apenas espírito académico e o desejo de me integrar. Mas, ao mesmo tempo, também me tornei uma pessoa sem paciência. Na segunda semana, não fui sequer à praxe. Não saí uma única vez à noite. Não fui a convívios. Não fui ao jantar do meu curso. Porque já estava - e estou - cansada. Muito, muito cansada desta grande desilusão que eu sinto.

Depois de quase uma vida inteira a criar expectativas quanto ao ensino superior, a olhar para a praxe como algo que seria divertido e lúdico, a tradição, o estudar - tudo - não sinto motivação nenhuma. Ainda agora comecei a estudar e já tenho vontade de acabar. E ainda tenho três anos pela frente.

Todos os doutores me dizem que as próximas praxes serão divertidas. Mas nem para praxes divertidas eu tenho vontade. Não tenho vontade para praxes nenhumas, de todo. A única coisa em que eu consigo pensar neste momento, é nos trabalhos e pesquisas que já tenho marcados, nas aulas que ainda não tive e vou ter, e em concentrar-me no curso porque é para isso que eu estou aqui - para estudar.

E isso é outra coisa que me está a atrapalhar imenso. Tirando uma ou outra pessoa, todos se têm revelado autênticas criaturas da noite. Pouca gente parece ter noção do quão caro sai o Ensino Superior e qual é o real objetivo de estar cá. A única coisa em que pensam é nas jantaradas, saídas, bebedeiras, convívios e idas ao café. Mais de metade falta sistematicamente às aulas - e incentivam os caloiros a fazer o mesmo. Ninguém é um exemplo positivo para ninguém, e só nestes quinze dias já vi pessoas a mudar radicalmente. Vi pessoas que todas as manhãs chegavam à escola de ressaca (ou não chegavam de todo). Vi pessoas a falar das coisas mas absurdas com um orgulho imenso. Vi pessoas a incentivar os caloiros a fazer o que não é correto. Vi maus exemplos atrás de maus exemplos. E, quando alguém se recusa a seguir o rebanho, não consegue enquadrar-se.

E essa é a principal razão porque eu ainda não tenho amigos. Além das minhas colegas de casa e mais duas ou três pessoas com quem me dou bem, não consigo aproximar-me de ninguém porque são todos demasiado diferentes. Demasiado desfocados dos seus objetivos. Ou demasiado sem objetivos.

Eu quero fazer amigos, quero conhecer pessoas, quero divertir-me, sair, viver a vida académica. Mas não quero deixar de ser quem sou, desviar-me do meu caminho ou abandonar os meus objetivos em troca de umas quantas histórias de que poderei arrepender-me mais tarde. Estou aqui para estudar. Estou aqui para construir um futuro melhor. Não estou aqui para me transformar.


Este texto desencadeou diversos problemas. Assim sendo, o ideal seria eliminá-lo. Mas as minhas palavras já foram distorcidas de diversas formas e este texto é o único onde elas permanecem originais. Assim sendo, mantê-lo-ei online.

Copiando e colando uma resposta que dei a um dos debates:


Eu não ofendi ninguém na medida em que não mencionei nomes. Não referi pessoas particulares. Não fiz sequer um texto de ataque - o que eu escrevi foi uma reflexão, o meu ponto de vista das coisas. [...] Se os meus olhos e memória não me falham, eu mencionei várias vezes que EU é que sou diferente. Eu é que não me enquadro. Eu é que estou deslocada. E que, apesar de me querer enquadrar, não consigo adequar-me a um estilo de vida que não é o meu. [...] Quanto às praxes, expliquei porque razão não as frequentei, e ainda assim omiti algumas razões que poderiam ser consideradas mais "aceitáveis". Quanto à obediência: eles não são meus patrões, não são meus pais e não são meus professores. E são a esses três tipos de pessoas que eu devo obediência. Não a colegas. E não da forma que a praxe exige. Admito, sim, que categorizar os meus colegas como "criaturas da noite" poderá ter sido um excesso. Apesar de não o ter dito de forma pejorativa, mas sim como uma mera metáfora. Generalizar também foi um erro meu. Ok, dou a mão à palmatória nisso. Aliás, dou a mão à palmatória em muita coisa. Cometi os meus erros. Muita coisa neste texto foi um erro. Mas fui honesta. E não há nada de errado em ser honesta e falar sobre isso. Tenho o direito de ter uma visão diferente da vossa. E todos vocês têm o direito a estar chateados comigo. [...] foi um erro generalizar, SIM. Mas não mencionei ninguém em particular. Eu própria disse que não conheço quase ninguém.

6 comentários:

  1. Olá Rafaela!

    Mandaram-me este link no facebook e depois de ler o teu post senti que devia comentar, porque senti uma enorme empatia pelo que escreveste.

    Eu também fui caloiro de CDM, e também estudei na ESEC. Nos primeiros tempos senti exactamente o que tu dizes. Não via propósito nenhuma na praxe, tudo parecia uma enorme perda de tempo e eu só estava ali para estudar. Naquela altura, pagar 200€ por um traje (já não me lembro bem quanto) era uma completa estupidez e um desperdício de dinheiro... "É só roupa", "Não vou tirar melhores notas por estar de traje", "Na entrevista de emprego não me vão perguntar se trajei ou não" pensava eu.

    Era pouco dado a saídas, e nem gostava de cerveja. Admito que ao inicio fui à praxe um pouco com receio e porque todos os outros iam, mas ao mesmo tempo numa perspectiva de "não hei-de morrer estúpido" e "vamos lá ver o que se aqui passa".

    E ao inicio ia porque pronto, era caloiro, e era o que os caloiros faziam.

    Ir aos convívios depois de andar um dia a correr, a saltar, de quatro, e a cantar musicas parecia custar bastante mas no fundo eu sabia que mal não me ia fazer, e que no fundo só ia perder umas horas de sono e pouco mais. E digo-te que foi um bom investimento, os convívios são as melhores oportunidades para falares com pessoas do curso e identificares amigos e/ou pessoas com interesses em comum. Desengana-te se pensas que toda a gente vai para os convívios para ficar podre de bêbado... Há muitas pessoas, inclusive doutores e veteranos que não o fazem, e são uma boa companhia. Experimenta.

    Quanto às aulas: Não tens que faltar. E nem tens que seguir o exemplo de ninguém. Acho bem que sintas a responsabilidade de ir às aulas porque no fundo é essa a tua obrigação. E não recomendo a ninguém faltar nos primeiros meses. Mas também te digo que assim que começares a conhecer o curso, o tipo de trabalhos que tens frequências e professores percebes rapidamente às aulas que podes faltar e as que não podes. Eu faltei a aulas, e nunca chumbei a nenhuma cadeira. Fiz o curso em 3 anos. CDM é um curso fácil. Não o leves demasiado a sério, mas também não te esqueças que estás a tirar um curso.


    Eu sei que é chato, e por vezes pode não fazer sentido e sentires-te desconfortável. Mas isso vai-te acontecer sempre, em qualquer ambiente, e acredita numa coisa: Lidar com pessoas é das melhores capacidades que alguém pode ter.

    Vais ter tempo para conhecer a cidade, e certamente vais conhecer bons amigos e vais adorar o teu tempo em Coimbra, tens é que tentar e não te podes fechar, muito menos no inicio. Daqui a uns tempos as coisas acalmam, há muito menos saídas, e a rotina é bastante mais pacifica. Aproveita este início de aulas para conheceres os teus colegas e os recantos de Coimbra.

    No meu caso ao fim do meu curso com um traje que me orgulho de ter usado muitas vezes, com grandes amigos e com muitas recordações. E consegui o meu emprego na mesma. E voltava a fazer tudo outra vez.


    Uma coisa eu sei: O que de melhor levo de Coimbra são as recordações e as experiências. O curso foi secundário. Vê lá tu que nunca me pediram as notas ou o certificado de curso em qualquer entrevista :)

    Há tempo para tudo em Coimbra. Beber ou estudar, faltar às aulas ou dedicares-te a sério naquela cadeira que mais gostas. Experimenta :)

    “Everything in moderation, including moderation.” ― Oscar Wilde


    Daniel Marques


    PS: Isto não está nenhuma obra literária, porque fui escrevendo à medida que me ia lembrando de coisas para te dizer :)

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    1. Até agora foste das pouquíssimas (mas não única, felizmente) pessoas que veio "falar" comigo pacificamente e com maturidade. Por causa de este texto e algumas afirmações ocasionais, estou a ser bombardeada por tudo e todos como se tivesse feito alguma declaração hitleriana. Aparentemente, não se pode ser uma opinião divergente. Não bastava eu estar insatisfeita, ainda tinha de falar publicamente sobre isso! A indignação das pessoas perante isso é colossal.

      Ao que parece, aconteceu alguma coisa à minha página de Facebook, que se encontra inacessível de momento. Eu poderia ser ingénua e acreditar que é coincidência... mas a verdade é que a imaturidade das pessoas revela-se de muitas formas. Se, após o teu comentário, eu fiquei com vontade renovada de tentar mais uma vez, com esta "coincidência" eu perdi-a.

      Enfim... acima de tudo: MUITO obrigada pelo teu comentário! Sinto-me menos odiada graças a ele. Puxaste-me as orelhas de forma simpática e sem me julgar e isso é mais do que eu poderia pedir a alguém. Obrigada. :)

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    2. O facebook está com problemas, tem calma. A tua pagina está bem de saúde :)

      O que queria transmitir é que as coisas ao inicio parecem más, mas é o inicio, tem calma e deixa as coisas desenrolarem. Lembra-te que tens sempre outros grupos académicos a que podes pertencer, como por exemplo a AESEC e a K&Batuna, e com eles experimentares também a vida Coimbrã. Fora esses a propria Associação Académica de Coimbra tem bastantes grupos e actividades a que podes aderir.

      Mas eu sei que em CDM te vais dar bem, não te preocupes. Não leves as coisas a peito.

      Se no final de tudo não achares mesmo piada a nada disso, faz o curso e pronto. No fundo a escolha é tua, só não queria que te precipitasses.

      :)

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    3. Pois, eu entretanto percebi. Tive o meu momento de paranóia. lol

      Muito obrigada! :)

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  2. Rafaela, esse pessoal apenas gosta de se rir com as parvoíces que ''mandam'' fazer, com a desculpa das praxes... Pronto, divertem-se assim... Vida triste :(

    Ahhh, pois...
    Sim claro só vai quem quer, mas depois o pessoal que não vai, ou é isto ou é aquilo, sim é... Esses ditos doutores, que crescam, pois não é a rirem-se das cenas que mandam outros fazer, que os vão ensinar (os caloiros) a integrar-se tanto na faculdade como no ''emprego''.


    bomb planted.... puuuuum em 5,4,3,2,1,000000

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    1. Não é que as praxes sejam más. Eu é que não gostei particularmente deles. Não me adptei a elas como seria necessário, nem tenho a motivação para tal.

      Mas sim, é verdade que a questão da integração só funciona para quem vai a elas. Porque quem não vai não só enfrenta dificuldades de integração normais, como também é hiper pressionado para ir, ou, caso não vá, transforma-se numa pessona non grata.

      hahahahhaa

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