11 setembro 2015

Faculdade: E Agora? • #1 - Reflexão de uma Nova Caloira


Desde que me conheço como gente que o meu maior e principal objetivo de vida é ir para a Faculdade. O sonho da capa negra acompanhou-me nos últimos anos como uma espécie de fada madrinha ou guia de vida. Sempre que eu sentia que nada valia a pena, aquele sonho surgia-me ali a dizer que no final eu seria recompensada. 

Mesmo quando eu cogitava a possibilidade de me ficar pelo décimo segundo ano, mesmo quando eu sentia que todo o estudo não compensava, mesmo quando eu sentia que provavelmente e não teria condições para seguir para a Universidade, ele estava lá. E foi o que sempre me motivou. A horas perdidas a estudar, o papel desperdiçado em apontamentos, as canetas gastas em anotações, os marcadores fluorescentes enfraquecidos de tanto sublinhar, os livros amarrotados de tanto uso, as manhãs à base de café porque na noite anterior fiquei a fazer um trabalho ou a estudar (ou a ler um livro para relaxar). Tudo isso, às vezes, parecia-me em vão. Mas o sonho da capa negra nunca me permitiu desistir. 

Mas o meu sonho não era somente a capa negra. Era tudo. Eu queria Letras, queria a Universidade de Coimbra, queria todas as tradições, a vida académica. Quando cheguei ao décimo segundo ano, estava decidida e sabia bem o que queria. Mas o que eu queria não era o mesmo que as outras pessoas queriam. Deixe-me ceder pela pressão. Comecei a procurar alternativas. Quando encontrei a alternativa ideal, creio que encontrei também o meu futuro. 

Desde muito jovem que o Design, a Internet e a Fotografia fazem parte da minha vida de uma maneira especial. Houve, inclusive, uma altura em que estava decidida a seguir Design Gráfico. Foi sol de pouca dura, porque entretanto encontrei aquela que será sempre a minha maior e principal paixão - a História. A História acompanhou o meu coração durante os últimos seis anos como uma amiga íntima. Ela era filha do meu sonho de capa negra. Mas, quando chegou a altura de decidir o meu futuro, não foi História que eu coloquei na minha candidatura. 

Aquele amor que eu tinha desde jovem, enterrado enquanto hobbie, acabou por ser tornar um objetivo quando comecei a procurar uma alternativa a História. De todos as alternativas, era a única que poderia fazer-me feliz. Podia não estudar a minha amada História, mas estudaria algo de que também gostava imenso. 

Assim, na minha candidatura, coloquei Comunicação e Design Multimédia, no Instituto Politécnico de Coimbra. Não iria para História, nem para Letras, nem para a Universidade. Mas ainda teria Coimbra, ainda teria o sonho da capa negra, ainda teria um pouco do meu sonho de infância. 

Só no momento em que fui colocada - e chorei de emoção - é que realmente compreendi que provavelmente fiz a melhor escolha que podia fazer. Não, História não seria - jamais - uma má escolha. E eu prometi a todos os deuses que ainda a estudarei. Está na minha lista de coisas a fazer antes de morrer. Mas, antes de estudar aquilo que amo, quero exercer profissionalmente em algo de que gosto. 

Desde que fui colocada  que a minha vida começou a dar uma série de voltas e reviravoltas alucinantes. E nem todas são visíveis. A maioria delas, no meu interior. 

É que, sabem, até aqui, tudo tem sido um sonho. Mas agora está muito real. Depois de fazer a matrícula eu senti-me estranha em mim mesma. Enquanto estava lá dentro, na fila, à espera da minha vez de ser atendida, eu senti-me como uma criancinha. Uma criancinha que vai pela primeira vez para a escola. 

Não tinha os meus pais comigo, o que me fez sentir vulnerável. Estava rodeada de doutores (alunos de anos superiores) que pareciam saber tudo sobre tudo, enquanto eu sentia que não sabia nada. Estava confusa, incerta quanto ao que eu precisava de saber e onde ir. E subitamente cheguei à conclusão que os próximos três anos vão mudar-me muito. 

Oriunda de uma vila pacata no interior de Portugal, constantemente rodeada de verde, pinheiros, apenas o céu por cima, as mesmas caras todos os dias, eu pergunto-me se estarei realmente pronta para abandonar o ninho e lançar-me à cidade cinzenta, barulhenta, sobrelotada e gigantesca sozinha. 

Porque eu, como (quase) todos os estudantes do ensino superior, terei de sair de casa para ir estudar. Todas as semanas farei sessenta quilómetros. Dormirei numa casa que não é a minha, com pessoas que só conhecerei então. Estudarei numa escola nova. Passarei de aluna de Humanidades para aluna de algo que é uma misto de arte e tecnologia. Trocarei os manuais, as figuras históricas e milhentas fotocópias por algoritmos, pincéis do Photoshop, frames de video. Trocarei a comidinha da mãe diária por comida congelada, pré-feita ou feita por mim. Trocarei a minha família pelos estudos, o meu namorado pela educação, um emprego AGORA por três anos de estudo e um emprego MAIS TARDE. 

Mas no final de tudo, ainda terei a minha capa negra. Eu espero.


3 comentários:

  1. Adorei!! Não tenho mais nada a dizer... liindo, espectacular!!

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    1. Muito obrigada, Rita. Espero que daqui a um aninho ou dois seja eu a ler uma reflexão tua sobre o assunto! ;)

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